Tem assunto que eu queria que não fosse necessário falar. Queria que fosse algo que ficou num passado tortuoso e infame.
Mas não adianta. Ainda é preciso (e muito!) erguer a voz para falar da questão da igualdade (ou, no caso, da brutal desigualdade) de gêneros, em vários campos da atividade humana. Ainda é preciso caminhar muito pra desatarmos essas amarras e essas correntes que nos mantem presos a esse passado infame.
Impressionante, mas em pleno 2023, a sociedade ainda parece estar muito longe de reconhecer o machismo estrutural e institucional que a mantém, e mais longe ainda de quebrar com essa cultura perversa e obtusa para, enfim, se assentar sobre uma base muito mais sólida e inteligente, sustentada por pessoas, independente de gênero ou qualquer outra diferença. Porque não é só beleza que está na diversidade, como muito se diz por aí. A inteligência está na diversidade. O equilíbrio está na diversidade. A preservação da vida está na diversidade. O sucesso está na diversidade.
A sociedade, nós todos de todos os gêneros, precisamos urgentemente assumirmos que somos sim, estruturalmente, machistas e patriarcais. Que lá no fundo do nosso inconsciente coletivo, que nos domina sem sabermos, ainda lateja e viceja o conceito - desvirtuado da realidade - de uma improvável superioridade masculina.
Ok, tivemos, sim, alguma evolução, nas últimas décadas, ou nos últimos séculos.
Evoluímos apenas porque temos conseguido reduzir o cancelamento das mulheres, a anulação da participação de tantas e tantas mulheres fundamentais para o desenvolvimento da sociedade humana. Evoluímos por estarmos descobrindo, aos poucos, que a mulher esteve e está presente nos principais momentos da evolução da humanidade e das sociedades. Que chegamos aonde chegamos apenas por conta da ação das mulheres. Não como coadjuvantes, mas como protagonistas. Mulheres que foram canceladas e apagadas da história por muito tempo, exatamente pela sociedade patriarcal.
Como exemplo, lembro de Maria Madalena, que segundo a Bíblia e tantos estudos bíblicos e históricos era a pessoa mais próxima e em quem Jesus mais confiava. Maria Madalena foi uma peça central, basilar e fundamental na construção da religião católica, que hoje é seguida por bilhões de pessoas em todo o mundo. Mas não é que Maria Madalena foi praticamente apagada da história, sendo relegada ao papel de uma prostituta regenerada? De pessoa mais importante para Jesus - a grande figura do cristianismo - a prostituta arrependida. Isso é mais que cancelamento, é quase um assassinato.
Aqui no Brasil, temos outro caso marcante. O de dona Leopoldina, que hoje se sabe que foi a verdadeira responsável pela declaração de independência do Brasil – fato que foi, durante décadas e décadas, atribuído a seu marido, Dom Pedro I, que numa construção irreal, foi retratado numa atitude tipicamente máscula, montado em um cavalo à beira de um rio, com sua roupa militar, bradando palavras corajosas e destemidas com a espada em punho, seguido por um séquito de subordinados. Pelo que a história vem desvendando e trazendo à luz, essas palavras bradadas masculamente foram todas idealizadas e escritas por uma mulher, Leopoldina. O cérebro e a coragem por trás da independência do Brasil. E por muitos anos, décadas, não se falou uma palavra ou pintou um quadro que retratasse a verdadeira “heroína” da Independência. Ela seguiu, na história, apenas como a esposa de D. Pedro I.
E fico apenas nesses dois exemplos bem marcantes, um no mundo, outro no Brasil.
Hoje não se cancela mais as mulheres, ao menos não tanto. Não se anula abertamente.
Hoje, as mulheres "são convidadas" a participar da festa. Estão nos postos de trabalho, comandam famílias, fazem ciência, lideram equipes, são reconhecidas nos esportes e nas artes (lembrando que, há alguns séculos, as mulheres não atuavam no teatro. Os homens se vestiam e maquiavam para desempenhar o papel de mulheres nas peças teatrais).
O problema é que elas são convidadas pras festas, mas ainda "não são admitidas" na pista de dança. Estão entrando na festa, mas não podem dançar. Estão no mercado de trabalho, mas com salários muito inferiores aos de seus colegas homens. No ambiente de trabalho, muitas vezes não são respeitadas como seus pares. São silenciadas, menosprezadas. Têm pouco espaço de fala, têm suas falas cortadas e interrompidas.
E pior. Em muitos ambientes, ainda sofrem o preconceito por serem mães ou, mais grave ainda, por terem a possiblidade de, em algum momento, engravidarem. O que causaria transtornos pela ausência causada pela licença-maternidade e suas consequências. Como se homens não faltassem ao emprego, não passassem longos períodos da jornada sem produzir nada. E sem estar em qualquer licença. Apenas por gozarem do privilégio de serem homens. Os tais. Os superiores.
Talvez uma pesquisa mais séria e aprofundada acabe um dia mostrando que, ao final de um determinado período de tempo mais longo, é capaz que homens tenham faltado mais ao trabalho, ou produzido bem menos, do que mulheres que nesse período tenham gozado de uma licença-maternidade.
E isso, sem fazer dupla ou tripla jornada, como é tão usual na vida das mulheres. Aliás, nesse ponto, muitos ainda têm o disparate de falar que mulheres em casa não fazem nada demais. Claro, no geral esses homens não cuidam dos filhos pequenos, não amamentam, não cozinham, não lavam, passam, guardam, limpam a casa, acompanham deveres escolares, levam filhos pra escola, participam de reuniões na escola, cuidam dos cachorros dos maridos (sem trocadilho, ou talvez com...), cuidem da despensa, do orçamento doméstico, etc, etc, etc. Se isso é não fazer nada....
No esporte a coisa não é muito diferente, não. O esporte feminino tem ganhado projeção ultimamente, bem ultimamente, mas ainda passa uma ideia de que os veículos de comunicação tratam como um subproduto do esporte masculino, e surfam na onda do politicamente correto. O espaço nem de longe é o mesmo. E os salários, então, nem se fale.
Aqui, um parêntesis para anotar uma ação importante. O fato de o governo federal ter decidido adotar ponto facultativo nos dias de jogos da seleção brasileira, no campeonato mundial que começa agora dia 20. Ação, aliás, seguida pelo executivo distrital.
Mas o certo é que ainda vivemos um mundo desigual. Uma sociedade desequilibrada. E que acaba trazendo enormes prejuízos por não incluir em todas as atividades pessoas tão competentes, capazes, inteligentes, sensíveis, humanas, equilibradas, sensatas. Somente pelo fato de serem mulheres. Apenas por terem um útero.
Ainda é preciso fazer muito. Ainda é preciso aprender muito.
A coisa é tão chocante que ainda temos que comemorar quando nos deparamos com fatos e situações que deveriam ser cotidianas e totalmente normais. Como a ação do governo federal e distrital com relação ao mundial de futebol, como dito acima, e como o caso que li recentemente em uma publicação numa rede social que me chamou muito a atenção, por ser um relato de uma boa (ou excelente) prática e que acho que merece ser multiplicado. Escrito por uma mulher divorciada, com duas filhas, empregada de uma empresa multinacional.
Em suma, ela narra que foi chamada pra trabalhar na empresa. Desde o começo, desde a entrevista, comentou sobre sua situação de profissional, dona de casa e mãe. Ou seja, mulher com dupla, tripla jornada de trabalho. Segundo ela, a empresa disse a ela para não se preocupar com isso. Em plena pandemia, o trabalho estava sendo realizado todo de forma remota. A mulher topou e foi trabalhar lá.
Com a melhora na situação da pandemia, o trabalho começou a retornar à forma presencial. Ela expôs preocupação em não conseguir voltar ao presencial pleno. Mas a empresa sempre a deixou à vontade, dizendo ser bastante flexível, e que ela voltasse dentro de sua possibilidade. E ela seguiu trabalhando na empresa.
Até que chegou a uma situação em que ela precisava estar presente ao trabalho, por conta de uma reunião. Mas o fato ocorreu em pleno período de férias escolares, e não havia como deixar as filhas com ninguém. A empregada então contatou a empresa e perguntou se havia algum problema, se havia alguma restrição a levar as crianças para o trabalho. Mais uma vez, a empresa acolheu a ideia da mulher.
Ela foi então pra sua reunião, levando as filhas. E, segundo a autora da publicação, não só as crianças puderam passar o dia com ela no trabalho, como foram extremamente bem recebidas e acolhidas por todos.
A mulher então fez questão de levar a público sua experiência, louvando a postura da empresa.
Ela encerra dizendo que uma empresa que pretende contratar mulheres, mais do que dar cargos e títulos, é preciso dar condições para que elas consigam gerenciar essa dupla jornada. “Não adianta chamar pra festa e não chamar pra dançar”, conclui a autora da publicação.
Demais, né?
Mas não era pra ser. Era pra ser corriqueiro, era pra ser o normal. Não era pra ser comemorado como algo extraordinário.
A boa prática aqui enaltecida, tão diferente do que acontece em milhares de empresas mundo afora, mostra o quanto estamos distantes de uma realidade com justiça de gênero. O quanto estamos longe da tão falada, mas tão ignorada, igualdade de gêneros.
É isso. Com certeza vamos voltar ao tema.
Grato pela companhia. Até.

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